quinta-feira, 1 de julho de 2010

Ela pensava na liberdade enquanto bebia sua água, imaginava a energia que fazia o relógio pendular funcionar. Talvez não fosse quem via no espelho; talvez fosse apenas fruto da imaginação de uma pessoa solitária, ela mesma já havia criado uma ou outra.

O ser humano é incrível e simultaneamente frustrante, era o que ela pensava. Justamente porque o que o diferenciava dos outros animais era sua capacidade de impor sua vontade sobre o instinto, e não a capacidade de raciocinar, como alguns diziam.

Ela não se importava em morrer, não que quisesse, apenas não era relevante, não havia nada que a prendesse e as pessoas geralmente não despertavam seu interesse. Inerte. Amizade era algo que achava curioso, uma troca, eu lhe exponho meus segredos, mostro minhas fragilidades e você me dá seu apoio, não, muito obrigada. Não entendia muito bem, havia sido sozinha a vida toda, não precisava que cuidassem dela.

Seu nome era Clarice e às vezes ela brincava de ser feliz, ela fingia não sentir aquela angústia insistente correndo dentro de seu corpo e fingia amar moderadamente, como fazem hoje em dia.

Clarice ria da inutilidade dos esforços das pessoas; Marcelo ajudava crianças da favela, ensinava-as a ler e escrever, distribuía livros, acabou cravejado dez balas. Daniela pegava casos de presos por caridade e os tirava de suas jaulas sem nenhuma exigência, foi estuprada por um desses que tirara da cadeia. Era tão irônico, era tão triste.

Quando tinha doze anos era tão inocente que se perguntava o que levava as pessoas a se suicidarem. Ela era criança, lia poesias em parques e comia cereja com creme de leite que manchavam seus vestidos brancos. Naquela época recendia à balas de morango e caramelo e beijara um garoto tão delicadamente que seu coração ficara apertado.

Clarice era composta por fragmentos, era doce e amarga, tinha olhos acinzentados e um porte delicado, com ares de bonequinha de luxo. Tinha algo de essencial, porém era efêmera. Ficava dias sem falar, fechada em seu quarto e depois necessitava tanto de pessoas que queria engolí-las.

Você não conhece a Clarice, não mesmo.

Um comentário:

  1. amar moderamente.
    o traço característico da existência é a impermanência.
    C.

    ResponderExcluir